“Vou começar a empacotar as minhas coisas e vou providenciar o encaminhamento da minha demissão”, afirma Sérgio Moro

O “Superministro” de Jair Bolsonaro, Sérgio Moro anunciou no final da manhã de hoje sua saída do Ministério da Justiça e Segurança Pública após 16 meses no cargo. A decisão foi tomada após exoneração do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, publicada no Diário Oficial da União nesta sexta. A decisão foi do presidente Jair Bolsonaro.

“Queria lamentar aqui esse evento na data de hoje, estamos passando por uma pandemia. (…) Queria ao máximo evitar que acontecesse, mas foi inevitável. Não foi por minha opção”, afirmou.

Durante coletiva de imprensa, Moro falou sobre sua trajetória na pasta e apresentou os resultados. “No final de 2018, eu recebi o convite de Jair Bolsonaro. Já repeti diversas vezes, fui convidado a ser ministro. O que foi conversado com o presidente, foi que teriamos o compromisso com o combate a corrupção, crime organizado e criminalidade violenta. Foi me prometido carta branca para nomear todos os assessores, inclusive desses órgãos, a própria Polícia Federal”, afirmou.

Ele afirmou que, pelo meu passado de juiz, poderia ser um garantidor da lei e da imparcialidade dessas instituições. O ex-ministro disse que, no período em que esteve em frente à pasta, nem sempre teve apoio em seus projetos.

“A partir do ano passado, houve uma insistência do presidente na troca do comando da PF. Houve o desejo de trocar o superintendente do RJ primeiro. Eu não via motivo para essa demissão. (…) O presidente no entanto passou a insistir na troca do diretor-geral, eu disse: eu não vejo problema, mas eu preciso de uma causa, ocasionada por desempenho, erro grave. No entanto, o que eu vi, é que é um trabalho bem feito. Várias dessas operações importantes, contra crime organizado”, explica;

Para Moro, a troca acabou “violando a promessa” que havia sido feito a ele, de carta branca. “E haveria uma interferência política na PF. (…) Ia gerar uma desorganização. Não aconteceu durante a lava-jato, durante governos anteriores.”

Moro explicou ao presidente que seria uma interferência politica, e que ele teria dito que seria mesmo. Porém, para evitar mais uma crise durante a pandemia, o então Ministro sinalizou substituir Valeixo por alguém com perfil técnico, da própria PF. Chegou a sugerir um nome, mas não obteve resposta.

“A autonomia da Polícia Federal, com respeito a aplicação da lei, seja a quem for, isso é um valor fundamental que temos que preservar num estado democrático de direito.”

Conforme Sérgio Moro, Bolsonaro tinha preocupação com inquéritos em curso na PF e que a troca “seria oportuna por esse motivo”. “Também não é uma razão que justifique. É até algo que gera uma grande preocupação”, afirmou.

Moro afirmou que não houve nenhum pedido formal para a saída de Valeixo e não assinou nenhum decreto. Ficou sabendo pelo Diário Oficial. “Fui surpreendido, achei ofensivo”, afirmou. 

Para o ex-ministro, este último ato é uma sinalização que Bolsonaro quer ele “fora do cargo”. “Vou começar a empacotar as minhas coisas e vou providenciar o encaminhamento da minha demissão”, encerrou.

Repercussão*

Ontem (23), tão logo surgiram as primeiras informações de que Bolsonaro cogitava substituir Valeixo, entidades de policiais federais se manifestaram. Em nota conjunta, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) e a Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (Fenadepol) afirmaram que as recorrentes trocas no comando da corporação afetam sua estabilidade e credibilidade.

“O problema não reside nos nomes de quem está na direção ou de quem vai ocupá-la. Mas sim, na absoluta falta de previsibilidade na gestão e institucionalidade das trocas no comando”, afirmam as entidades. “Nos últimos três anos, a Polícia Federal teve três Diretores Gerais diferentes. A cada troca ou menção à substituição, uma crise institucional se instala, com reflexos em toda a sociedade que confia e aprova o trabalho de combate ao crime organizado e à corrupção.”

Já após a confirmação da exoneração de Valeixo, a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) manifestou-se “surpresa” e “preocupada”. “É preocupante que o Executivo lance mão de sua prerrogativa de trocar o comando da PF sem apresentar motivos claros para isso. Trata-se de um episódio que gera perigoso precedente e cria instabilidade para a atividade do órgão. A Polícia Federal é uma instituição de Estado e deve seguir, com autonomia e rigor científico, em sua missão de combater o crime doa a quem doer.”

*Fonte: Agência Brasil

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