Por que Panambi não tem UTI?

A pandemia do coronavírus colocou em evidência um problema antigo do sistema de saúde brasileiro: a falta de leitos nas Unidades de Tratamento Intensivo. 

Entre os indicadores do modelo de Distanciamento Controlado do Governo do Rio Grande do Sul, por exemplo, a taxa de ocupação deste tipo de leito é um dos indicadores mais importantes para classificação de bandeiras.

Ao longo do mês de agosto, a região de Ijuí – que inclui Panambi e Condor – esteve com mais de 80% dos seus 26 leitos (16 do SUS e dez privados, todos localizados em Ijuí) ocupados. E, em pelo menos duas ocasiões, chegou inclusive a atingir a ocupação total, além de ter passado a marca dos 103%.

Este foi um dos motivos da região ter voltado à bandeira vermelha nesta semana. Conforme o Estado, a região não possuía nenhum leito de unidade de tratamento intensivo disponível para atendimento Covid-19 um dia antes.

A quantidade de leitos de UTI em Ijuí, que precisa atender vinte municípios, é baixo quando comparado às regiões vizinhas. Cruz Alta, por exemplo, que atende 13 municípios, conta com 32 leitos. Já Palmeira das Missões conta com 35 e Santo Ângelo tem 43.

E com o aumento de internações registrado desde a chegada da pandemia ao estado, o acesso à UTI aos pacientes, inclusive de Panambi, está cada vez mais difícil, independente de estarem infectados ou não com o coronavírus.

“Em determinadas situações, o paciente precisa aguardar horas ou até mesmo dias para conseguir um leito devido à ocupação na região”, afirma o diretor do Hospital de Panambi, Vilmar Scheer.

Diante deste cenário, por que Panambi não tem uma unidade de tratamento intensivo? 

O prefeito Daniel Hinnah explica que Panambi tem a gestão plena municipal da saúde, mas é para as questões de baixa e média complexidade. “UTI é uma questão de alta complexidade regulada pelo Governo do Estado. Portanto, o Hospital precisa apresentar um projeto de habilitação de UTI no Governo do Estado. O município incentiva que isso aconteça, porém, é conhecido pela realidade do município que a dificuldade não está em comprar ou equipar uma UTI.

Custos

De acordo com o diretor da casa de saúde do município, há três fatores necessários para a instalação de uma UTI: estrutura física, infraestrutura tecnológica e manutenção.

Scheer acredita que seriam necessários mais de R$ 2 milhões de investimentos em estrutura e equipamentos para uma unidade com dez leitos.

Há ainda os custos com manutenção. O custo de um leito de UTI por dia é de aproximadamente R$ 2,8 mil. Neste valor, estão incluindo diversos gastos, incluindo o da  equipe da unidade (médicos intensivistas, neurologistas, fisioterapeutas, entre outros). 

Então, caso o hospital tivesse dez leitos, gastaria cerca de R$ 28 mil por dia. Por mês, o custo seria de aproximadamente R$ 840 mil, que pode chegar a R$ 900 mil. “O custo é extremamente elevado”, ressalta Scheer.

“Já existem vários exemplos no Rio Grande do Sul em que foram instaladas UTIs e depois de um tempo foram fechadas por falta de condição da manutenção”, explica o prefeito Daniel Hinnah. “Custa muito caro a manutenção de uma UTI e, independente de ela estar ou não sendo utilizado, tem que estar à disposição pagando toda a equipe de profissionais.”

O líder do Executivo sinaliza que o município pode ajudar na manutenção da unidade. Porém, enfatiza que necessita de recursos do Governo do Estado e do Governo Federal. 

Caso fosse instalado uma UTI no hospital, o município teria condições de auxiliar sim, assim como faz com todos os serviços SUS. O município já paga regularmente, especialmente por produtividade, e nós queremos ter um contrato com o hospital em que a gente remunere um sustento mínimo para o hospital pelo serviço estar à disposição.

Uma vez que a UTI atenderia toda a região, a alternativa apresentada pelo prefeito seria buscar o apoio dos municípios vizinhos que abrangem a área da 17ª Coordenadoria Regional da Saúde. 

A tendência é que Panambi só vai ter UTI se a própria comunidade panambiense – seja por meio do poder público, planos de saúde ou apoio privado – tenha sustento financeiro local. O que torna praticamente inviável para o momento.

Ideia semelhante é apresentada pelo diretor do hospital. “Em alguns outros municípios, houve aporte de recursos da iniciativa privada e ao poder público a manutenção e os custeios dos leitos.

Falta de mão de obra

No entanto, tanto o prefeito quanto o diretor reiteraram que uma das principais dificuldades para a instalação de uma Unidade de Pronto Atendimento no município não são os custos de manutenção e sim a falta de mão de obra.

“A grande complexidade disso está em profissionais. que devem estar 24 horas por dia à disposição”, explica o prefeito Daniel Hinnah.

A equipe de uma UTI é formada por médicos e enfermeiros intensivistas, com formação especial justamente para aplicar técnicas avançadas em pacientes com risco de morte. 

No entanto, faltam profissionais intensivistas para atuar nas UTIs, mesmo nas que já estão em funcionamento. “Em todo o país, há uma carência de profissionais para cobrir todas as necessidades relacionadas à uma UTI 24 horas”, ressalta o diretor Vilmar Scheer.

Preparação

Apesar dos obstáculos, o Hospital de Panambi vem trabalhando para que nosso futuro possa abrigar uma UTI em suas instalações. 

“Ao longo dos últimos anos, passamos por uma reestruturação física, inclusive com projetos de reforma. Tudo isso visa, a médio e longo prazo, elevar a uma condição de implantação de UTI”, explica o diretor da instituição.

Entre os critérios do Ministério da Saúde para a habilitação de um hospital, consta que a instituição precisa ter no mínimo cem leitos ativos. Isso apenas para que haja a pré-condição inicial atendida para se ter uma UTI. 

Atualmente, o hospital conta com 59 leitos ativos no total. “Estamos com uma estruturação de novos leitos a médio prazo para que a gente consiga atingir esse número mínimo de leitos. Mas existe uma série de outros fatores que são determinantes para a instalação da UTI, como o quantitativo populacional”, afirma Scheer.

Além de toda essa infraestrutura ter que estar à disposição para que o hospital seja habilitado, ela tem que ser regulada pelo Estado. “Isso significa que, ao passo que o hospital dispõe de leitos de UTI, a gestão deles passa a ser do Estado. E mesmo que o hospital tenha os leitos, pode ser que eles não estejam à disposição para a casa de saúde”, aponta o diretor do hospital.

O Plano Estratégico Panambi 2030, discutido e formulado pela comunidade com a participação do próprio hospital e outros representantes da área da saúde, projeta que o município tenha leitos de UTI à disposição em até dez anos. “Isso foi colocado como plano de longo prazo porque sabe-se que pelo momento atual, ele não é viável para o município de Panambi”, ressalta o prefeito Daniel Hinnah.

“Mas temos que considerar que o município tem ótimas referências de UTI em Ijuí, Cruz Alta e, com a construção do hospital federal em Palmeira das Missões. Ou seja, para três direções diferentes, a gente sai e tem três UTIs à pronta disposição. Dificilmente será habilitado pelo Governo Federal uma UTI em Panambi sendo que vai ter um hospital federal em Palmeira das Missões. Esse é um dos problemas.”

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