O pior desfecho possível: as revelações sobre a morte do menino Rafael

Rádio Sulbrasileira esteve em Planalto para acompanhar coletiva da Polícia Civil e conversar com testemunhas sobre os bastidores do crime que chocou o Rio Grande do Sul

A triste e inesperada revelação do desaparecimento de Rafael Mateus Winques, 11 anos, chocou a todos que acompanharam o caso ao longo das últimas semanas – inclusive polícia e a imprensa. A notícia de que a mãe do garoto, Alexandra Dougokenski, havia matado o próprio filho e escondido o corpo colocou a pequena cidade de Planalto, com cerca de 14 mil habitantes, em evidência.

“Foi o pior desfecho possível”, desabafa a conselheira tutelar Denise Vojniek, que acompanhou o caso.

O corpo de Rafael seria encontrado dez dias após o seu desaparecimento na casa ao lado da que ele morava, na Rua José Sartori, Bairro Medianeira. Ele havia sido colocado dentro de uma caixa de papelão, ocultado por retalhos de roupas.

Enquanto a polícia seguia as buscas pela criança, a mãe pedia ajuda à comunidade, que atendeu ao apelo de Alexandra. O Corpo de Bombeiros e a Brigada Militar chegaram a utilizar cães farejadores nas proximidades da residência.

“A gente só quer ele de volta”, disse Alexandra em vídeo gravado há poucos metros do local onde ela havia escondido o corpo de Rafael. A filmagem foi divulgada pela RBS TV na segunda-feira (25), horas antes de revelar que havia matado o filho.

Inicialmente, Alexandra relatou à Polícia Civil que o filho estava agitado e havia dado a ele dois comprimidos de Diazepam – remédio para ansiedade – para se acalmar. Alexandra alegou que havia uma “briga” pelo uso excessivo do celular. Porém, durante a madrugada, teria descoberto que o filho estava morto. 

Após enrolar o filho em um lençol, arrastou seu corpo por cerca de dez metros até a residência ao lado, que estava abandonada, e o escondeu na caixa. 

A mãe disse à polícia que não tinha intenção de matar. No entanto, o laudo do Posto Médico-Legal de Carazinho revelou que Rafael morreu por asfixia mecânica por estrangulamento. “Não seriam suficientes dois comprimidos de diazepam para causar a morte da criança”, revelou o delegado de polícia de Planalto, Ercílio Carlete.

Para a polícia, diante das suspeitas, trata-se de um homicídio qualificado. Alexandra foi presa temporariamente, por trinta dias, e mais perícias serão feitas. Não está descartado a participação de outras pessoas no crime.

Deste modo, a trágica morte de Rafael ainda está longe de ter um desfecho. 

A equipe de reportagem da Rádio Sulbrasileira esteve em Planalto, localizado há cerca de 140 quilômetros de Panambi, para acompanhar a coletiva de imprensa da Polícia Civil e entrevistar vizinhos, parentes e autoridades que dão detalhes ao crime.

Mãe suspeita

Inicialmente, a Polícia Civil trabalhou com diversas hipóteses, inclusive sequestro, que foram descartadas no decorrer da investigação. “Não havia motivo para o desaparecimento do Rafael”, afirmou o delegado de polícia de Planalto, Ercílio Carlete, durante coletiva à imprensa.

Ele revelou que a mãe virou suspeita ao longo dos depoimentos “sem muita consistência” que ela prestava à Polícia Civil. “Ela dava versões conflitantes, com pequenas alterações que nos chamou a atenção. Ao longo dos interrogatórios e conversas com a mãe, sentimos que o caminho da investigação era ali. Alguma coisa havia acontecido”, disse em entrevista à Rádio Sulbrasileira.

Alexandra manifestava frieza nos depoimentos à polícia, como se não estivesse preocupada com o desaparecimento do filho. “Causou uma estranheza”, afirmou o delegado. Contudo, a face fria presente no rosto da mãe deu lugar às lágrimas quando ela finalmente confessou, aos prantos, o crime à polícia. O interrogatório, de acordo com os investigadores, foi “exaustivo”, no intuito de mostrar à acusada que seu depoimento apresentava inconsistências.

A Polícia Civil ainda trabalha para saber se o crime foi arquitetado ou se Rafael foi morto pelo uso de medicamentos, conforme a mãe relata. “Essa resposta vamos ter no final do inquérito.”

Mãe carinhosa

Autoridades, familiares e vizinhos relataram à reportagem que Alexandra aparentava viver uma vida tranquila com os filhos Rafael e outro adolescente, com 16 anos. Até o desaparecimento da criança, a família era apenas mais uma da pequena comunidade de Planalto para a Polícia Civil.

Eu sou testemunha. Via a família passar na frente da delegacia. Cansei de ver a mãe levando o filho para a escola. Entrevistamos diversas pessoas, inclusive o pai do Rafael, que relatou que ela sempre foi uma mãe carinhosa. Então o motivo é uma incógnita, não temos uma materialidade do motivo”, relatou o delegado Ercílio Carlete.

Carlos Eduardo da Silva era vizinho da família e descreve Alexandra como “tranquila e educada”, que não aparentava estar envolvida em brigas com familiares ou outros moradores. No dia em que Rafael teria sumido, ela foi até a casa de Carlos e perguntou pelo filho. Sequer chegou a suspeitar que a mãe poderia ser a responsável. 

Nunca na nossa mente imaginávamos uma situação dessas, ainda mais nesta família. Era uma relação familiar mesmo.

O desenrolar do caso surpreendeu a conselheira tutelar Denise Vojniek, tanto que o Conselho Tutelar não registrava ocorrências envolvendo a família e ajudou nas buscas a Rafael. “Era uma mãe que se passava muito cuidadosa, que levava e busca os filhos na escola.(…) Dando detalhes que estava sentada no sofá da sala esperando qualquer barulho toda a noite para ver se o filho estava chegando. Mostrar a bíblia do lado dizendo que estava rezando. Saber que uma mãe fez uma barbaridade dessas, tudo muda.

Após a descoberta da morte de Rafael, uma fita preta foi colocada junto com uma foto da criança na porta do Conselho Tutelar. “Ninguém está preparado psicologicamente para uma situação dessas. A gente não queria que chegasse a isso. Hoje a gente vê que foi o pior desfecho possível.

O menino Rafael

Estudante do sexto ano do ensino fundamental, Rafael é descrito por quem o conhecia como uma criança querida e brincalhona, que passava a maior parte do tempo na escola ou em casa. “Era um menino que todo mundo gostava”, relata a conselheira Denise.

O vizinho Carlos Eduardo da Silva relata que o jovem costumava ir até a sua residência brincar com seu sobrinho. “Uma criança alegre, que sempre te cumprimentava. Por convivência, posso dizer que foi uma criança extraordinária.”

A avó materna, Isaíldes Batista, mora em frente à casa onde tudo ocorreu e costumava divertir-se com o neto, o qual chama agora de anjo. “Ele sonhava em ser policial”, afirma.

Rafael costumava usar o celular para conversar com os colegas de escola e para divertir-se com jogos como Free Fire. Porém, não perdia um futebol ou uma brincadeira com os amigos. 

“Dá uma vontade de abraçar. Ele me chamava de ‘corona’, brincava, quando vestia calça leggin, dizia que eu estava de fralda. São essas memórias que eu quero levar dele”, desabafa a avó.

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