Gasto público aliviou a crise, mas efeitos colaterais devem aparecer em 21

▪ Crise tem efeitos opostos em preços ao consumidor e ao produtor
▪ Juro básico dos EUA deve permanecer baixo por período longo
▪ Contas públicas imporão grande desafio para próximo ano

Crise tem efeitos opostos em preços ao consumidor e ao produtor

O IBGE divulgou nesta semana o índice de preços ao consumidor IPCA-15 (Gráf. 01) de agosto, que apresentou variação de 0,23%. Com o resultado, acumula uma alta de 2,28% nos últimos 12 meses. O indicador mostra que Artigos de residência continua pressionado, tendo apresentado a principal variação positiva (0,88%), enquanto o grupo Educação (-3,27%) sofreu a maior queda, devido aos descontos dados em função da crise e capturados apenas em agosto. Além disso, dois pontos merecem destaque.

O item Alimentação no Domicílio (0,61%) segue positivo, puxado pelos semi-elaborados, em especial o grupo Carnes (3,06%). No outro sentido, os principais itens de combustíveis surpreenderam para baixo, com desaceleração da Gasolina (2,63%), aceleração do Diesel (3,58%) e resultado negativo do Etanol (-0,28%). Com a divulgação, nossa
projeção de IPCA para o mês de Agosto fica em 0,18% e reforça o caráter desinflacionario da crise para a inflação oficial do país.

No entanto, o índice geral de preços IGP-M, da FGV, já acumula variação de 13,02% em 12 meses, ao ter avançado 2,74% em agosto. A forte alta do indicador deriva do peso de 60% dado ao índice de preços ao produtor amplo (IPA),
que no mês de agosto variou 3,74%; enquanto o IPC, que representa 30%, teve alta de 0,48%. A discrepância entre os dois índices deve perseverar enquanto a pandemia não for superada, uma vez que foi intensificada
pela crise do covid-19.

O IPA, que tem em sua composição as principais commodities exportadas pelo país, sofreu forte pressão positiva pelos efeitos da depreciação do Real nos preços destes produtos, e deverá reverter o movimento apenas quando os riscos global e fiscal cederem.

Por outro lado, o desemprego alto e as incertezas limitam os salários e, consequentemente, a capacidade de repassar movimentos de alta aos consumidores. Desta forma, uma aceleração do IPC depende ainda do
fortalecimento da recuperação econômica.

Juro básico dos EUA deve permanecer baixo por período longo

No simpósio anual de Jackson Hole, o presidente do Fed, Jerome Powell, anunciou uma mudança na estratégia de política monetária e nos objetivos de longo prazo do Federal Open Market Commitee (FOMC), que passa a enfatizar o emprego. O comitê avaliou que a taxa de juros estrutural, que garante a estabilidade de preços no longo prazo e nível máximo de emprego, vem decrescendo ao longo do tempo.

Esse menor patamar da taxa estrutural, pela proximidade do zero efetivo, dificulta a ação da política monetária em períodos que demandam uma ação mais acomodatícia, um dos fatos que levou o comitê a rever as ferramentas de condução.

De forma a melhor ancorar as expectativas de longo prazo para a inflação e potencializar o efeito real da política monetária, o FOMC decidiu perseguir uma inflação cuja média ao longo do tempo convirja a 2,00%. Desta forma, a instituição passa a tolerar variações no nível de preços superiores à meta, na sequência de períodos em que ela tenha sido consistentemente inferior a esse patamar.

Com a decisão, o comitê sinaliza que a taxa de juros do país deve ficar baixa por um período maior, o que deve contribuir para manter em alta a liquidez global. A decisão também contribui para a manutenção da Selic em patamares historicamente baixos, assim como para o manejo da dívida pública que, no entanto, continua condicionada à situação fiscal.

Contas públicas imporão grande desafio para próximo ano

Segundo o Tesouro Nacional, o Governo Central registrou déficit primário de R$87,8 bilhões (Gráf. 2) no mês de julho, em linha com nossa projeção (R$89,8 bi.). Esse foi o pior resultado para o mês de julho desde o início
da série histórica. Em relação a julho de 2019, a arrecadação líquida caiu 22,8%, em termos reais, puxada pelas receitas com Imposto de Renda (-27,2%) e com IOF (-73,9%). Já a despesa subiu 44,9% (R$55,1 bilhões) nessa mesma base de comparação.

O avanço nos gastos é explicado fundamentalmente pelas despesas em combate à crise da Covid-19, que
somaram R$62,7 bi. somente em julho. No ano de 2020, o governo já acumula um déficit de R$505,2 bilhões, que chegará a casa dos R$820 bi. (12% do PIB) até o fim do ano, segundo nossas projeções. Ainda que uma
forte expansão do gasto público tenha sido necessária para o enfrentamento da crise sanitária, ressaltamos que as medidas tomadas tem um elevado custo e devem ser limitadas ao ano corrente.

A manutenção de programas que ampliem os déficits primários para além da crise deverá ter efeitos nocivos à estabilidade macroeconômica, ao crescimento e ao emprego. Desta forma, perseverar nas reformas necessárias ao ajuste fiscal se torna ainda mais importante para garantir um crescimento econômico sustentável.

Principais destaques da próxima semana
• No fim de semana, serão divulgados a produção industrial e varejo (jul.) do Japão e o PMI composto (ago.) da China.
• Na segunda-feira, leitura final do PIB (2º tri.) da Itália, relação Dívida/PIB (jul.) do Brasil e emprego (jul.) no Japão.
• Na terça-feira, conheceremos os PMIs manufatureiros (ago.) da Zona do Euro, EUA e Brasil; desemprego (ago.) na
Alemanha e, de julho, da Zona do Euro. No Brasil, será divulgado o PIB do 2º trimestre e nos EUA os ISM (ago.).
• Na quarta-feira, vendas no varejo (jul.) na Alemanha.
• Na quinta-feira, divulgação das vendas no varejo (jul.) na Zona do Euro, da produção industrial (jul.) no Brasil, do
payroll dos EUA (ago.) e PMIs compostos (ago.) da Zona do Euro, EUA e Brasil.

Fonte: Sicredi

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