CPMI investiga anúncios do governo em sites de fake news, jogos de azar e pornografia

O Governo Federal, por meio da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), realizou 2.065.479 veiculações de anúncios em canais de conteúdo inadequado entre os dias 6 de junho a 13 de julho de 2019 por meio do programa Google Adsense.

É o que aponta um levantamento feito pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso Nacional (CPMI) que investiga as fakes news nas eleições de 2018. De acordo com o documento, 843 canais que divulgam notícias falsas, jogos de azar e até conteúdo pornográfico exibiram publicidade do governo no período analisado. 

Mais de 740 canais removidos do  YouTube por descumprimento de diretrizes, por exemplo, tiveram 240.407 anúncios. E quatro canais com conteúdo sexual receberam 27 impressões, ou seja, a frequência com que seu anúncio é exibido. De acordo com o Google, uma impressão é contabilizada sempre que seu anúncio aparece em uma página de resultados de pesquisa ou em outro site.

Também foram divulgados mais de 650 mil peças publicitárias em 12 canais dedicados à divulgação de notícias sobre jogos de azar ilegais. Um deles é o site Resultados Jogo do Bicho, onde foram exibidas 319.082 publicidades por meio do programa Adsense no período analisado.

O relatório aponta que 47 canais investigados por divulgar notícias falsas exibiram 653.378 vezes anúncios do Governo Federal. Um dos que mais veiculou foi o “Sempre Questione”, 66.431 impressões ao todo. Conforme o documento, o portal divulga “‘matérias’   sobre   múmias alienígenas escondidas em pirâmides do Egito, colisores de átomos que abrem portais   para   o   inferno   e   baleias   encontradas   em   fazendas   a   centenas   de quilômetros do litoral.

Outros sites citados que são o Jornal 21 Brasil (84.248 impressões), Imprensa Viva (65.661 impressões), Gospel Prime (44.750), Diário do Brasil (36.551 impressões) e Jornal da Cidade Online (30.508 impressões).

Além disso, o canal de YouTube Terça Livre TV, também acusado de divulgar fake news, integra a lista de veículos que receberam publicidade oficial, com 1.447 impressões. Em depoimento à CPMI das Fake News, no dia 5 de novembro de 2019, o proprietário do canal, Allan dos Santos, alegou que seus veículos de comunicação “não recebem dinheiro da Secom”. 

Também foi revelada a existência de anúncios do Governo Federal em canais dedicados a

promover a imagem do Presidente da República, Jair Bolsonaro. O relatório cita como exemplos o canal de YouTube Bolsonaro TV e os aplicativos para celular “Brazilian Trump”, “Top Bolsonaro Wallpapers” e “Presidente Jair Bolsonaro”. 

De acordo com o documento, a veiculação de anúncios pela Secom em canais deste tipo podem gerar questionamento com base na Constituição, pois abre a possibilidade de se interpretar tal fato como utilização da publicidade oficial para promoção pessoal.

Desperdício de recursos

Na conclusão do relatório, consta que a utilização do programa Google Adsense pela Secom gerou “várias incorreções na condução da política de publicidade oficial da Presidência da República”, e afirma que houve “descontrole” que resultou em desperdício de recursos públicos.

“O dinheiro da publicidade oficial terminou por ser empregado em diversos canais com conteúdo inadequado, fazendo com que a imagem do Governo Federal fosse veiculada em canais de baixa qualidade e associada a conteúdos falsos, criminosos, de cunho sexual ou referentes a promoção pessoal do Presidente da República”,consta.

Na avaliação do relatório, a utilização do programa Google Adsense “gerou graves problemas de falta de transparência na condução da política de comunicação do Governo Federal” e considera difícil “ou mesmo impossível” identificar os proprietários da maior parte dos canais de que receberam anúncios.

“Ao contrário do que ocorre nas outras modalidades de publicidade, há pouco controle sobre os reais fornecedores do espaço publicitário, já que o sistema da Secom identifica todos os anúncios publicados na rubrica Google Adsense, sem identificação dos veículos anunciantes.” 

Tipos de canalNúmeros de canaisNúmero de impressões
Sites4.0184.418.653
Aplicativos de celular13.70427.137.839
Canais de YouTube47.811 15.631.555
Total65.53347.188.047

“Na Secom do presidente Bolsonaro, não há desvios”

Em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (3), o secretário de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Fábio Wajngarten, afirmou que o governo federal não define em quais portais ou sites serão veiculadas as peças publicitárias.

“Na Secom do presidente Bolsonaro, não há desvios, não há favorecimento de A, B ou Z. A Secom preza pela tecnicidade e a economicidade”, afirmou.

Ele acrescentou que o governo só paga uma publicidade quando ela é clicada pelo usuário na internet, e que sites de conteúdo “impróprio”, como pornografia e ações ilegais, são excluídos pela plataforma Google. 

“Vocês verão que o total de anúncios servidos, ou seja, entregues, para a campanha da nova Previdência, foi de aproximadamente 400 milhões. Em se confirmando esse número de 2 milhões, estamos falando de uma assertividade de 99,5% da comunicação da Secom, mas a gente ainda não teve acesso a esse relatório que retratou 2 milhões de anúncios”, afirmou.

Já o secretário de Publicidade da Secom – responsável direto pelos investimentos publicitários do governo federal, Glen Valente, disse que o governo contrata uma agência de publicidade, que utiliza uma plataforma do Google para distribuir os anúncios com base em algoritmos definidos pela plataforma, a partir de critérios de perfil de público definidos pelo governo.

“A Secom contrata a agência de publicidade, que vai e utiliza a plataforma Google, no caso Google Adsense, baseado em critérios e alguns filtros, ela faz o investimento em nome do cliente. E o Google, com base em algoritmos, faz o investimento em alguns sites com base no perfil de investimento que a Secom definiu para atingir determinado público. Não há nem é possível direcionamento para qualquer site ou blog, a gente está atrás da audiência, ou seja, onde está o cliente”, detalha.

O que diz o Google

Em nota, o Google destaca que trabalha para aperfeiçoar as plataformas e oferecer os melhores resultados aos seus parceiros. “Agimos diariamente para minimizar conteúdos que violam nossas políticas e impedir a ação de pessoas mal-intencionadas em nossa rede. Somente em 2019, conforme nosso mais recente relatório de transparência, encerramos mais de 1,2 milhão de contas de publishers e retiramos anúncios de mais de 21 milhões de páginas, que faziam parte de nossa rede, por violação de políticas”, acrescenta a nota.

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